A Era dos Pressentimentos
- Larissa Figueiredo
- há 3 dias
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Sou uma bandeira rodeada de lonjuras.
Pressinto os ventos que vêm e tenho de os viver,
enquanto as coisas embaixo ainda não estão a se mover:
as portas ainda se fecham suavemente e há silêncio nas lareiras;
as janelas ainda não tremem e o pó continua pesado.
Mas eu já conheço as tempestades e agito-me no mar encapelado.
E estendo-me e caio dentro de mime atiro-me e fico no meio da tempestade, assim,
completamente só até o fim.
“Pressentimento”, Rainer Maria Rilke.
Em 07 de março de 1962, na abertura de sua lição do Seminário IX, A Identificação, ouvimos
de Lacan: "A partir de hoje, vocês o verão, abro deliberadamente a era dos ressentimentos”. Augúrio que inaugura o uso das figuras topológicas em seu ensino, prenúncio do que viria a ser a última etapa de sua transmissão – a matemática como ponto de encontro com o Real.
Muito já se falou do uso da matemática por Lacan para apreensão, extração e transmissãodos conceitos através de uma perspectiva estruturalista - grafos, matemas, fórmulas lógicas, etc. Aoadentrar na seara da topologia, esse uso complexifica-se, pois a topologia, diferentemente das outrasmatemáticas, é uma geometria inquietante. Livre da métrica, sua flexibilidade permite uma liberdadeextraordinária. Aqui, o equivalente da estrutura são as invariantes, propriedades que permitem distinguir um objeto dentre outros, mesmo que, na aparência (percepção visual), eles sejam bastante distintos. A topologia é um ramo da assim chamada matemática pura.
Na matemática pura, a aplicabilidade dos conceitos não está em jogo, é secundária. Seu universo é abstrato e o senso comum costuma associá-la a noções de beleza e elegância. Por vezes apelidada de “matemática estética”, é alçada por alguns ao estatuto de arte. Acontece que, nos dias dehoje, desde pelo menos as revoluções burguesas, há um certo utilitarismo vulgar que perpassa os discursos (Universitário, do Mestre e do Capitalista) e que se nos impõe que as coisas não se justificam por si, mas sim por sua utilidade, aplicabilidade, numa espécie de pragmatismo ansioso, que reduz constantemente o saber a uma prática. Nessa perspectiva, a matemática pura – e em consequência a topologia – é inútil. Mais que inútil, sem sentido, pois aí se trabalha com signos cujos referentes estão ancorados na sintaxe, isto é, nas relações internas das entidades em um certo universo abstrato e não na realidade externa e concreta, não sendo esses signos perfeitamente traduzíveis para a linguagem natural pela via do significado.
Então, por que a topologia? Se esta é um pedaço da matemática que estuda coisas, formas que não existem na realidade tangível do nosso mundo? Se ela trata de objetos de um universo não acessível pela via fenomênica, por que Lacan passa a utilizá-la na sua construção teórica? Perguntamo-nos: e a clínica? Queremos que esses objetos nos falem da experiência clínica, das noções conceituais da psicanálise! A questão é que essa abordagem, por apoiar-se no imaginário/simbólico (gozo de sentido), deixa de fora o que talvez (minha hipótese) mais interessasse a Lacan: pela via da matemática (pura) pode-se alcançar, tocar, tangenciar, e, quiçá, se inscrever algo do Real.
Assim, quando Lacan introduz a topologia, não se trata de ilustrar a teoria com figuras peculiares, nem de buscar na matemática um método de demonstração que legitimariaepistemologicamente a psicanálise. Trata-se antes de situá-la no ponto exato em que se descola a escrita do sentido. Há hiância entre o saber e o Real, hiância que a topologia presentifica. E é nesse vão que o ensino de Lacan passa por uma torção decisiva.
É no Seminário XXIII, O Sinthoma, que sentimos a coisa se tornando mais radical: quando a
topologia escapa do metafórico (operação simbólica) para surgir como finalidade em si, presentificando assim o impasse do próprio pensamento quando deparado com a incapacidade imaginativa e figurativa de apreender a lógica do topos. Lacan pena bastante com algumas das amarrações e dos encadeamentos que ele próprio propõe. A esse penar ele atribui – como causa –uma espécie de inibição imaginária, uma inibição do pensamento que empaca, custa a estabelecer sentido, ou seja, conexão entre a tentativa imaginária de estabelecer completude para o simbólico dos nós.
A partir daí, fica muito claro que é a categoria filosófica pensamento que passará por uma elegante e fina crítica de Lacan, que, para isso, utiliza como paradigma o more geométrico spinoziano, demonstrado como insuficiente, senão incapaz de conceber o Real. O rigor desse método é rígido, a demonstração que proporciona é vã. O que importa é, na verdade, a mostração: a pseudoesfera armilar que se revira, a abertura dos anéis em retas infinitas, o diálogo entre seus amigos matemáticos que conseguem dialogicamente, enfim, trançar três nós paranoicos borromeanamente: são todas essas operações “intuitivas” mostrações do Real. É necessário que compareça algo ex-sistente ao pensamento para que os objetos topológicos possam ser manipulados. O pensamento, diz Lacan, é rígido. Trata-se do pensamento cartesiano – res cogitans, substância do eu, a mente, identidade do próprio ser. É por isso que o ato analítico não se funda nele, mas a partir dele. O Real aproxima-se daquela intuição dos matemáticos criativos, apontada por Poincaré como instrumento de invenção.
Lacan nos aponta o impasse, a aporia do pensamento, que, por sua rigidez, inibe a aparição do Real. Isso é o que faz da topologia campo tão afim ao campo psicanalítico, sua espacialidade não é de todo imaginarizável. E mais, ao contrário do que ocorre na matemática aplicada, não é o fenômeno que segue um modelo matemático – uma estrutura determinável – mas é a própria apreensão da estrutura que exige uma espécie de trabalho lógico e intuitivo a cada objeto.
Em outras palavras, a “topologia psicanalítica”, se assim podemos chamá-la, precisa ser inventada continuamente, dialeticamente, assim como o é a própria psicanálise. Exemplifico: a falha do nó e sua correção se dão a partir de um lapso no encadeamento entre real e simbólico, o nó pode ser corrigido pelo ego corretor que “segura” o imaginário, como no caso de Joyce. Não são as possibilidades de rompimento e correções pré-estabelecidas topologicamente que levam a deduzir o ego corretor como uma possível reparação no nó, mas a própria reparação topológica feita pelo ego corretor é que se escreve como solução de estabilização do sujeito Joyce. Ora, se não é isso uma nova forma de encarar a estrutura, não mais como modelo teórico prescritivo, nem como extração de um “núcleo duro” da experiência, mas sim como invenção com a clínica. Uma invenção que se dá em uma certa lógica da espacialidade regida pelas invariantes topológicas.
Invenção de uma escrita: com o nó de quatro e suas derivações, Lacan concebe uma estrutura que não é antecedente ao sujeito: ela se escreve com ele. Uma topologia singular, inventada no ponto exato em que o pensamento falha e o Real comparece. Com essa matemática, é possível apensar o impossível. Para seguir nesse caminho com Lacan, faz-se necessário servir-se do nome-do-pai para dele prescindir. É preciso enlouquecer um pouco, permitir que o Real faça seu jogo, abster-se um tanto do gozo do sentido, de noções como aplicabilidade, finalidade, utilidade, e entregar-se à inimaginável lógica do topos. É um suspender, appendere – apensar apoiado na escrita do nó.
Mas como é difícil! A mente resiste, e para isso, talvez, seja o caso de, como no samba de Elton Medeiros, quando “tudo faz pressentimento (...) deixar a casa aberta, suportando a resposta do silêncio que atravessa a madrugada” ou mesmo fazer como diz Rilke: atirar-se ao meio da tempestade. Afinal, é necessário que tenhamos na análise, como provocou Lacan, “o sentimento de um risco
absoluto”.
Larissa Figueiredo
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